quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Os Bolcheviques

Das cinzas da II Internacional em 1914 e da Revolução Russa de 1917 surgiu a III Internacional em 1919. O SPD, desacreditado pelos internacionalistas, já não era o centro do movimento socialista. A vitória da Revolução Russa tornou-se a principal fonte de inspiração e de direção para os revolucionários e para os milhões de trabalhadores em revolta contra a velha ordem.

Uma onda de lutas revolucionárias varreu a Europa após a I Guerra Mundial. Operários ocuparam fábricas, tomaram de assalto palácios e abalaram o domínio do capital desde Moscou a Glasgow e da Finlândia à Catalunha. Muitas das velhas estruturas de poder foram destruídas. Mas somente na Russa a maré da revolta trouxe à luz um estado operário. Os velhos partidos da II Internacional aliaram-se com as suas classes dominantes para restabelecer a “ordem”. Os internacionalistas, junto com os bolcheviques, formaram a III Internacional e tentaram construir partidos comunistas com base no exemplo russo.

Do mesmo modo como no período anterior a historia da política sexual era parte da historia da esquerda, no século XX ela esteve ligada ao destino da revolução.

Em dezembro de 1917, dois meses após a revolução, os bolcheviques aboliram todas as leis contra a homossexualidade. Ao mesmo tempo o aborto foi legalizado, o divorcio foi garantido e as leis de maioridade foram abolidas. Em dois meses, os bolcheviques conseguiram mais do quem em décadas de reforma liberal no outros países. As liberdades legais garantidas pela revolução foram mais amplas do que quaisquer outras conquistadas antes ou depois da revolução.

Mas os bolcheviques não pode ser julgados apenas por suas palavras. Ao lado das novas leis houve uma tentativa seria para criar alternativas À família, e assim destruir a base material da opressão da mulher. Restaurantes, lavanderias e creches comunais foram estabelecidos para possibilitar às mulheres escaparem da labuta das tarefas domésticas. Todas essas mudanças ocorreram em um país atrasado e destroçado pela guerra, e assim foram sempre limitadas pela pobreza da Rússia, da mesma forma como a própria revolução. Contudo, a Revolução Russa mostrou na prática como uma sociedade socialista poderia começar a erradicar as raízes da opressão sexual.

Como o bolchevique Grigorii Batkis escreveu em 1923:

“A atual legislação sexual na União Soviética é obra da revolução de outubro. Essa revolução é importante não apenas como um fenômeno político que assegura o papel político da classe trabalhadora. Mas também pelas revoluções que se desenvolveram a partir dela atingindo outras áreas da vida (...) (A legislação Soviética) declara a absoluta não interferência do estado e da sociedade em questões sexuais tanto quanto ninguém seja ferido ou tenha seus interesses violados – no que concerne à homossexualidade, sodomia e várias outras formas de gratificação sexual que são consideradas pela legislação européia como ofensas à moralidade. A legislação soviética trata-os de forma exatamente igual ao chamado intercurso ‘natural’.” (citado em Early Homossexual Rights Movement)

Delegados soviéticos foram enviados aos Congressos Internacionais da Liga Mundial pela Reforma Sexual (ela própria um produto do alto nível de luta em todos os campos que se seguiu À I Guerra Mundial) em Berlim em 1921, Copenhage em 1938 e Viena em 1930.

A prática e a política dos comunistas nos anos 20 contrastavam com as do SPD ou de indivíduos progressistas do período anterior. A sua meta não era conseguir a aceitação da homossexualidade, mas sim mudar a sociedade para esvaziar essa palavra de qualquer significado. A revolução buscava varrer, nas palavras de Marx, “toda merda do capitalismo” e substituir a base da opressão sexual – a família.

Mas se a revolução havia começado na Rússia, era na Alemanha que a sua vitória ou derrota seria decidida. A derrota da revolução alemã de 1919 e a ascensão de Hitler em 1933 foi o pano de fundo para o isolamento e a derrota da Revolução Russa. Isolada e acossada pela guerra civil e pelos exércitos invasores, a classe trabalhadora russa foi literalmente destruída enquanto classe. Já pelo início dos anos 20, os bolcheviques foram forçados a agir em nome de uma classe que estava desintegrando-se. No final dos anos 20, o processo de degenerescência estava bem avançado. A vitória de Stalin e da sua teoria do “socialismo num só país” em 1924 foi uma derrota esmagadora para a tradição socialista de combate pela libertação sexual. Uma das principais causas da vitória de Stalin foi a derrota da revolução alemã.

Alemanha 1919 – 33

Quando os soldados, marinheiros e operários derrubaram o Kaiser em 1918, o SPD, então abertamente reformista, tornou-se um dos principais bastiões da velha ordem. Revolucionários como Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin e Karl Leibknecht encontraram-se isolados e marginalizados. Rosa Luxemburgo e Liebknecht foram assassinados sob as ordens da SPD, e o capitalismo sobreviveu graças à capacidade do SPD em manter o apoio de milhões de trabalhadores.

Quando os operários e soldados tomaram de assalto o palácio do Kaiser, Magnus Hirschfeld dirigiu-se Às multidões anunciando a aurora de uma nova era e o fim de toda a exploração e opressão. Mas essa nova era seria o fruto não de uma revolução a partir de baixo, mas sim pela tomada do aparato estatal pelo SPD. Com a república de Weimar, pela primeira vez um partido reformista assumiu o governo. Assim, pouco surpreende que os trabalhadores tenham apoiado inicialmente “seu” governo. Mas a medida em que o governo se mostrou incapaz de resolver a profunda crise pela qual passava a Alemanha, o nível da luta de classes elevou-se agudamente.

O elevado nível de luta de classes na Alemanha refletiu-se não só na quantidade de greves e na militância partidária, mas em todos os aspectos da vida. Foi em 1919, que Hirschfeld estabeleceu a sua Fundação para a Pesquisa Sexual e o seu famoso Instituto para a Ciência Sexual em Berlim. Em 1921, ele contribuiu para a convocação e realização da Liga Mundial pela Reforma Sexual, a qual assumiu as leis soviéticas como exemplo e meta para o resto do mundo.

Hirschfeld foi empurrado para a esquerda pelo curso dos acontecimentos, mas permaneceu até o fim como um reformista e membro do SPD – somente mais tarde ele questionou alguns aspectos do seu reformismo. Ele via a república de Weimar como sendo a melhor base para educar as massas, mesmo quando descobriu que tinha que buscar o apoio dos comunistas para conseguir reformas.

Berlim tornou-se o centro de uma cultura gay. A desintegração da velha sociedade, a inquietação e o questionamento dos velhos valores criou um espaço para a tolerância em relação à homossexualidade. Pessoas que, como os escritores ingleses Christopher Isherwood e W. H. Auden (ambos “companheiros de viagem” do Partido Comunista dos anos 30) tinham condições para tanto, iam a Berlim como hoje vão a San Francisco ou Amsterdã. Como disse Isherwood, “Para nós Berlim significava garotos”. Ao contrário da repressiva Grã-Bretanha, lá era possível ser abertamente gay.

Era uma situação que não podia durar. A crise e a recessão que se seguiram à guerra atingiram a Alemanha mais do que qualquer outro lugar. A Alemanha tinha uma classe trabalhadora organizada e poderosa. Havia pouco campo para reformas prolongadas, pois o sistema não podia sustentá-las. A luta durou mais de dez anos, terminando finalmente com o esmagamento de todas as organizações operárias pelos nazistas.

Wilhelm Reich

Uma pessoa que na época esteve a frente da tentativa de fundir a prática comunista com a libertação sexual foi Wilhelm Reich, um discípulo de Freud. Reich via a opressão sexual como um dos grandes males do capitalismo, uma das principais formas pelas quais os trabalhadores eram mantidos dóceis e respeitadores da ordem. O sexo, afirmava ele, era uma força potencialmente libertadora e inquietante. Para serem verdadeiramente revolucionários deveriam libertar-se da opressão sexual. O Partido Comunista, ao mesmo tempo em que educava os seus membros em teoria e atividade política, deveria libertar sexualmente os seus militantes.

Reich, que foi um membro do Partido Comunista nos anos 20 (ele foi expulso em 1929), tinha uma influência particularmente na liga da juventude comunista. Novos recrutas deveriam ler O Estado e a Revolução de Lenin e libertar-se de seus "grilos sexuais". Somente pessoas liberadas sexualmente na teoria e na prática poderiam ser verdadeiramente revolucionárias. O socialismo era o fim da vida familiar monogâmica imposta.

As idéias de Reich adequavam-se ao período do início dos anos 20, quando a onda revolucionária estava em pleno ascenso. Pelo ano de 1929, as atitudes tanto na Rússia como no movimento comunista internacional estavam mudando.

Mas mesmo no ápice de sua influência, havia sérias debilidades nas idéias de Reich. Ele tendia a enfatizar soluções individuais para os problemas de sexualidade reprimida, em parte uma continuação de Freud, uma tendência que se desenvolveria ainda mais com seu rompimento com o Partido Comunista. Ele também tinha uma visão mecânica da sexualidade. Para Reich o orgasmo era algo tangível, uma forma de energia como o calor ou luz. Na verdade ele acreditava que o orgasmo soltava um brilho azul! A libertação era vista como sendo liberação dessa energia.

Porém, mais importante que tudo, Reich nunca rompeu com a teoria dos estágios de desenvolvimento sexual de Freud. Tanto para Freud como para Reich, o ser humano nasce com a capacidade de conseguir prazer sexual de praticamente qualquer fonte, uma sexualidade amorfa que a sociedade direciona e condiciona socialmente. Entretanto, esse processo era visto como se se desenvolvesse de forma linear. A sexualidade se desenvolveria através desses estágios. A saúde de uma pessoa ou de uma sociedade era julgada a partir desses estágios. Para Reich, o capitalismo limitava o desenvolvimento sexual dos indivíduos pela imposição da família e pela repressão do prazer sexual.

Mas nessa teoria, a homossexualidade era um dos estágios através dos quais todas as pessoas deveriam passar. Lésbicas e gays eram vistas como pessoas presas em um estágio sexual inicial - sua "libertação" seria "progredir" para a heterossexualidade. A homossexualidade seria uma regressão. Isso levou Reich a vincular a ascensão do nazismo com a opressão sexual e a homossexualidade.

A escuridão ao meio-dia: a ascensão de Hitler e de Stalin

gays, lésbicas, socialismo, comunismo, reich, freud, heterossexualidadeA década de 30 foi uma das piores épocas para os socialistas. A década presenciou a vitória do fascismo na Alemanha e na Espanha e o domínio final de Stalin na Rússia e no movimento comunista internacional.

A Alemanha havia sido o coração do movimento gay e possuía o maior partido comunista fora da Rússia e um partido social democrata de massas. E, no entanto, Hitler chega ao poder sem sequer um combate.

Os nazistas haviam usado tropas de assalto gay na SA para ajudá-los a assumir o controle das ruas. Na "noite das longas facas" a SA foi eliminada pela SS, que se tornou o principal instrumento de terror. Qualquer ilusão de que os nazistas pudessem ser indulgentes com os gays pelo fato de que alguns de seus primeiros líderes haviam sido gays, foi dissipada de maneira selvagem.

Desde que chegaram ao poder em1933, os nazistas atacaram não somente os judeus, mas também os gays, socialistas, ciganos e sindicalistas. O Instituto de Hirschfeld foi atacado e incendiado. Os sindicatos foram desmantelados, os partidos socialistas e comunistas foram banidos e os ativistas enviados aos campos de concentração. Milhões de vidas pereceram nas câmaras de gás, incluindo centenas de milhares de gays. O triângulo cor de rosa, usado hoje como um símbolo gay, originou-se da identificação usada pelos prisioneiros gays nos campos de concentração de Hitler.

A nova Alemanha seria construída sobre as ruínas das organizações da classe trabalhadora, com todos os elementos considerados como "desvios" sendo utilizados, junto com os judeus como bodes expiatórios - "elementos doentios" eram exterminados para criar a raça pura.

Era um capitalismo sem qualquer esmalte liberal, o nacionalismo nu e cru, o racismo e o sexismo selvagem - as criações da sociedade de classes e do capitalismo levadas às suas conclusões mais extremas e horrendas.

Mas também na Rússia, os acontecimentos seguiam um curso sombrio. No final dos anos 20, Stalin lançou um programa de industrialização forçada para possibilitar ao estado russo competir com o capitalismo ocidental em seu próprio terreno. Todos os ganhos da revolução foram anulados, e os altos custos da industrialização foram suportados pelos trabalhadores e camponeses russos. Os direitos e as organizações dos trabalhadores foram esmagadas, as condições de vida foram pioradas cada vez mais, ao mesmo tempo em que se trabalhava cada vez mais. A resistência a essa contra-revolução foi resolvida com trabalho forçado, exílio e execução. Das cinzas da revolução surgiu uma nova forma de capitalismo - o capitalismo de estado burocrático - o qual se colocou a tarefa de modernizar a Rússia e alcançar o ocidente. A burocracia estatal formada pelos membros dos altos escalões do partido comunista tornou-se a nova classe dominante.

Novamente milhões morreram nesse processo, nos campos de trabalho da Sibéria. Transformar um partido da classe trabalhadora em uma nova classe dominante só era possível com a destruição física daqueles que permaneciam revolucionários. Muitos bolcheviques antigos recordavam os dias em que eles estavam em um partido que lutava pela libertação e pelo socialismo pela base. Eles foram expulsos do partido, exilados ou assassinados. Trotsky tornou-se a figura em torno da qual a oposição se organizou, tendo sido um dos poucos revolucionários que sobreviveu aos expurgos de Stalin. E uma vez mais uma derrota para a esquerda foi uma derrota para gays e lésbicas.

Na medida em que a revolução foi se degenerando durante a década de 20, as conquistas das mulheres sofreram uma erosão progressiva. Cozinhas e creches comunais ou foram fechadas ou se tornaram inadequadas para o uso. O processo iniciado pela revolução de abolir a família foi completamente interrompido. A contra-revolução de Stalin foi mais além, promovendo a família como uma das instituições-chave para manter a ordem e uma nação "saudável".

Em 1934, toda a legislação progressista dos bolcheviques sobre a sexualidade foi revertida. A homossexualidade tornou-se ilegal (ainda é ilegal na União Soviética). Os abortos se tornaram impossíveis de serem realizados a menos que se fosse um membro da classe dominante. As mulheres passaram a ser idealizadas como mães e recebiam medalhas pelo número de filhos que tinham.

De um modo horrendo, a Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler espelhavam um ao outro no tocante à política sexual. Na Alemanha, a homossexualidade era denunciada como uma "prática bolchevique". Na Rússia e nos partidos comunistas ao redor do mundo (agora efetivamente instrumentos da política externa russa), era rotulada como um "desvio burguês", um rótulo que persiste entre alguns setores da esquerda. Os cartazes e a propaganda de ambos os países nos anos 30 eram espelhos uns dos outros. Em ambos, retratavam-se mães saudáveis com crianças em seus braços. O realismo socialista do stalinismo era idêntico à arte nazista na sua dependência de estereótipos sexuais.

O efeito do stalinismo na esquerda dos anos 30 aos anos 60 não pode ser subestimado. Ele quase destruiu a memória do socialismo pela base, do socialismo como criação da classe trabalhadora, da luta pela libertação sexual.

Na Grã-Bretanha, duas correntes dominaram no campo da esquerda, o Partido Comunista stalinista e o Partido Trabalhista reformista. Ambos eram reacionários nas suas idéias e práticas sobre a sexualidade. O Partido Comunista estava imbuído de todas as idéias que já descrevemos e que emanavam da Rússia stalinista. E o Partido Trabalhista estava associado há muito tempo com o metodismo e a "classe trabalhadora respeitável". Quaisquer noções de "desvio" sexual eram vistas como sendo perversões da classe dominante ou da classe média.

A memória do que havia sido a Revolução Russa, nas palavras de Lenin o "festival dos oprimidos", foi quase extinta. A tarefa de manter vivas as idéias marxistas nas piores condições possíveis coube a pequenos grupos isolados que se aglutinavam em torno de Trotsky. Marginalizados como estavam, as idéias se tornaram distorcidas. Essas idéias só foram redescobertas com a revitalização da luta nos anos 60.

A tradição stalinista não só abandonou qualquer luta pela libertação gay, mas também vinculava a homossexualidade com o nazismo, como produtos similares do capitalismo decadente. Exemplo típico das atitudes do stalinismo nessa época é este extrato de uma resenha de uma peça de Mae West publicada na revista americana The New Masses em 1934:

"(...)a introversão é essencialmente uma doença de classe e o resultado direto de uma vida sibarita [vida dada a prazeres, N.doT.] que finalmente resulta num profundo tédio pela falta de qualquer estímulo ou excitação possíveis. Está invariavelmente associada com aqueles elementos gêmeos de perversão, o sadismo e o masoquismo, e geralmente revela-se entre os representantes de uma classe decadente. A crueldade sádica do hitlerismo não é acidente. É o sintoma inequívoco de uma doença incurável (...) foi somente com o advento do Fuehrer que a homossexualidade foi elevada à categoria da arte de governar". [ citado em Joseph North (ed.), New Masses Internacional Publishers]

Ao mesmo tempo em que isto estava sendo escrito dezenas de milhares de lésbias e gays estavam sendo levados às câmaras de gás de Hitler.

E, no entanto, os partidos comunistas tinham em suas fileiras muitos escritores e "companheiros de viagens" gays famosos - W H Auden, Christopher Isherwood, Stephen Spender, E M Forster, entre outros. Eles nada disseram à época, em parte devido ao sentimento de culpa (culpa de ser classe média, mesclada à culpa de ser gay) e em parte pelos tempos sinistros. Somente André Gide criticou a Rússia por ter uma posição reacionária sobre a questão, e por causa disso foi violentamente atacado pela "esquerda". A vasta maioria dos "companheiros de viagens" dos anos 30 abandonou a política de esquerda nos anos 40 e 50. Alguns passaram para a direita. Auden retornou ao catolicismo, e Isherwood voltou-se para o misticismo oriental.

Mas nos anos 30, com a maré crescente do fascismo, o comunismo stalinista - não importava o quão suspeitas algumas de suas idéias fossem - parecia ser a única esperança para a maioria dos socialistas. A homossexualidade voltou para os porões da sociedade e deixou de ser parte da tradição da esquerda. Os gays viram-se encerrados em um mundo secreto de pessoas que eram identificadas por códigos e senhas somente compreendidos por elas próprias. Permaneceram encerrados num mundo subterrâneo dos bares gays, dos clubes privados, dos banheiros públicos e da linguagem codificada.

Stonewall e a ascensão da libertação gay

Foi somente no final da década de 50 que o edifício stalinista começou a rachar. Na Hungria em 1956, Checoslováquia em 1968 e na Polônia em 1970, a luta dos trabalhadores, que estava paralisada há mais de duas gerações, voltou para ameaçar os governantes do Ocidente e do Leste.

Mas foi no Ocidente que o movimento se fez sentir mais, remodelando o pensamento da esquerda. A revolta de Stonewall, com a subseqüente criação da Frente de Libertação Gay [FLG], foi um marco para a reintrodução da luta pela libertação gay na política da esquerda. Mas, do mesmo modo como nos períodos anteriores, devemos compreender essa nova evolução da política gay dentro do contexto mais amplo da luta de classes.

Stonewall ocorreu em um momento de ascenso da luta de massas. Houve muitas revoltas dos oprimidos através da história do capitalismo, mas é apenas nos momentos em que há um alto nível de luta generalizada que essas revoltas podem gerar resultados significativos. A revolta de Stonewall levou diretamente à criação de um movimento político, do mesmo modo que as revoltas negras dos anos 60 nos EUA levaram ao nascimento do Partido dos Panteras Negras. A FLG foi um fruto do avanço das lutas políticas.

Esse próprio ascenso foi o resultado de vários fatores. Foi em parte uma conseqüência das mudanças do próprio capitalismo. Com o longo boom do pós-Guerra, o maior de toda a história do capitalismo, o sistema atravessou as décadas de 40 e 50 até chegar aos anos 60 sem passar pelas recessões típicas à natureza cíclica da economia capitalista. Houve uma falta de mão-de-obra nas economias em expansão do Ocidente, e, assim, milhões de mulheres tornaram-se trabalhadoras nas novas indústrias em crescimento. A vida familiar tradicional mudou rapidamente.

A expansão minou a família, empurrando as mulheres ao mercado de trabalho, dando-lhes assim um grau muito maior de independência econômica, e concedendo reformas que, de algum modo, foram de encontro às aspirações crescentes dos trabalhadores. O Estado do bem-estar social foi a mais importante dessas reformas: e embora estivesse imbuído de todo o lixo sexista e reacionário do sistema, ajudou a libertar as mulheres da prisão do lar.

O advento da pílula e a disponibilidade de um amplo serviço de aconselhamento contraceptivo finalmente cortaram o laço entre sexo e reprodução para os heterossexuais.

Os dias em que a classe trabalhadora só possuía a família para recorrer, como havia sido durante o desemprego de massas nos anos 30, estavam terminados. As mulheres trabalhadoras estavam livres do constante temor da gravidez. Os "permissivos" anos 60 foram, pelo menos em parte, conseqüência do próprio crescimento do capitalismo. A elevação do padrão de vida e as expectativas crescentes levaram a uma crise dos velhos valores morais que haviam dominado a primeira metade do século.

Mas o fator mais importante foi a luta que minou a força das idéias reacionárias. Após as derrotas das décadas de 20, 30 e 40, a classe trabalhadora cresceu numericamente e ganhou confiança com as lutas que começou a travar nos anos 50. As greves eram curtas, mas eram freqüentes e em sua maioria eram vitoriosas. Essa foi a base para o grande ascenso das lutas de massas no final dos anos 60.

O sistema, tanto no Ocidente quanto no Leste, foi abalado pela onda massiva de lutas que varreu o mundo - o movimento anti-guerra nos EUA, a revolta operária e estudantil na França e a "Primavera de Praga" em 1968, Itália em 1969, Grã-Bretanha em 1972 e 1974, Portugal em 1974.

A guerra do Vietnã tornou-se um foco importante para essa maré de revolta e luta. Nos EUA, o movimento contra a guerra envolveu milhões de pessoas, e as manifestações em Washington aglutinavam centenas de milhares. Os guetos negros foram o cenário de grandes revoltas com as massas de trabalhadores negros exigindo direitos iguais e questionando a sua opressão. O movimento de mulheres conheceu idêntico crescimento. Foi uma época em que o sistema estava sendo desafiado por todos os lados, quando a opressão estava sendo reconhecida e combatida. Foi uma época em que a esquerda revolucionária saiu do isolamento e passou a crescer rapidamente. E foi também o renascimento da política gay com a revolta de Stonewall.

Stonewall

Era noite de sexta-feira no bar Stonewall, no dia 27 de junho de 1969. Estava cheio como sempre. Stonewall era um bar na Christopher Street, situado em Greenwich Village, centro de Nova Iorque. Como hoje, era o centro gay da cidade. Duzentos gays estavam presentes, todos homens, 50 ou mais travestis.

Stonewall era uma espelunca, e seus clientes eram, em sua maioria, jovens trabalhadores. Como a maioria dos bares gays, Stonewall era controlado pela Máfia, o que significava preços altos. O bar permanecia aberto apenas por causa das propinas pagas à polícia.

Para justificar os pagamentos a polícia fazia batidas ocasionalmente. Naquela noite quente de 1969, oito policiais resolveram dar uma batida em Stonewall. Eram apenas oito porque era um bar de "fadas" - quem já poderia imaginar que eles lutassem? Assim, não esperavam qualquer problema.

Para começar a batida seguiram a rotina de sempre - a polícia encheu os camburões para levá-los à delegacia. Lá seriam interrogados, mantidos para identificação e humilhados, a mercê dos policiais.

Mas, naquele dia, uma multidão começou a se juntar ao redor do bar, gritando e provocando a polícia. De repente a multidão, cada vez maior, começou a ficar cada vez mais zangada. Antes que se dessem conta do que estava acontecendo, os policiais se viram diante de uma multidão hostil que avançava sobre eles.

Os policiais recuaram, alguns com as pistolas sacadas, para dentro do bar vazio. A multidão libertou os gays que estavam dentro dos camburões e sitiou os policiais dentro do bar. Encurralados, os policiais ligaram para a delegacia pedindo auxílio.

A delegacia enviou a "Força Policial Tática", a tropa de choque de Nova Iorque normalmente usada somente no Harlem. Isso desencadeou uma revolta. Janelas foram quebradas, alarmes contra incêndio foram ativados, latas de lixo foram usadas como mísseis e os carros da polícia incendiados.

A revolta durou três noites, começando no crepúsculo e terminando ao alvorecer. A polícia foi obrigada a recuar da área. Incidentes menores iriam ocorrer durante todo o verão, até a formação, no mês de agosto, da Frente de Libertação Gay.

A FLG tomou Nova Iorque e a polícia de surpresa. Um ato "normal" da opressão cotidiana desencadeou uma resposta. A FLG realizou uma campanha contra os donos dos bares gays, os quais eram vistos como parasitas que exploravam os gays com seus preços exorbitantes e mantinham uma ligação com a polícia corrupta. A FLG realizava reuniões públicas, publicava um jornal, o Outcome, e organizou um dia de ação para retomar a Chrisropher Street das mãos da polícia - um dia para ser abertamente gay nas ruas.

Hoje em dia, manifestações pelo orgulho gay são realizados no mundo todo para celebrar a revolta de Stonewall. Ironicamente aquela revolta foi em parte um movimento contra os proprietários da "economia cor-de-rosa" - as pessoas que hoje estão na organização das manifestações.

Stonewall- consequências e conquistas

A FLG assumiu o nome inspirando-se nos inimigos do estado norte-americano - os Viet Congs e os norte-vietnamitas. Começou com o que na época era comum, mas hoje é raro - uma identificação com a luta revolucionária. Houveram muitos problemas na política do movimento gay no início dos anos 70, mas começou a partir de uma perspectiva revolucionária que foi um grande marco para a compreensão e a luta contra a opressão gay.

A FLG era uma organização de combate nascida nas ruas, e despendeu a maior parte de seu tempo lutando nas ruas. Seus slogans resumiam a sua nova análise da opressão gay - "Diga em alto e bom som, eu sou gay e tenho orgulho disso", "Não sou eu quem está doente, mas sim uma sociedade que me chama de doente".

A ênfase estava no fato de que os gays viviam em uma sociedade opressora que tinha que ser mudada. E essa mudança só poderia vir com os gays e lésbicas lutando abertamente nas ruas. A luta contra a opressão gay começa a partir do ato de assumir - os gays têm que se assumir publicamente e lutar para mudar as atitudes das pessoas e combater todas as formas de perseguição e preconceito. Tudo isso era excelente e um grande passo adiante.

Talvez um dos desenvolvimentos mais importantes do movimento gay foi a importância dada à atitude de assumir a sua opção sexual. O primeiro opressor dos gays são eles próprios - chegar a um termo com uma sexualidade que é taxada de "desvio" pela sociedade significa aprender a ter orgulho e não vergonha de sua sexualidade.

A FLG não só analisou a opressão gay, mas de modo geral esboçou a saída para superá-la, através da luta. Eles se identificaram com as lutas mais amplas contra o sistema. Tomaram parte em debates com os Panteras Negras, argumentando contra suas idéias machistas anti-gay - um debate que, pelo menos formalmente, eles ganharam. Eles estiveram envolvidos não somente com questões relacionadas aos gays, mas também participaram ativamente das manifestações contra a guerra do Vietnã. Eles viam a necessidade de transformar radicalmente a sociedade, em outras palavras, a necessidade de esmagar o capitalismo.